Tudo o que você sempre quis saber sobre inferno astral mas tinha medo de perguntar

Tudo o que você sempre quis saber sobre inferno astral mas tinha medo de perguntar
Não entendo nada de horóscopo, mas decorei uma resposta funcional pra esse tipo de pergunta: sou escorpião, ascendente em peixes, com lua em aquário.
Certamente, aquele homem atrás do balcão, o barman, sabe mais sobre mim do que esses planetas espalhados no meu mapa astral.
Do que me vale o retorno de Saturno, ou Júpiter na sétima casa, se meu uísque ainda não chegou?
Cético, cascudo e sem nenhuma transcendência, atravesso, cego, mais um inferno astral. Nada daquilo que gosto de ignorar pode me atingir: bigornas caindo de edifícios em construção, carros avançando na contramão, dores pelo corpo, trabalho sem sentido, pequenas pragas cotidianas, velhos jogos de azar ou amores do século passado.

Sou uma espécie de Homem de Ferro.
Mas daí, veja só, você entra no meu bar. Sim, chamo os bares que frequento de meu - mesmo sem nenhuma participação societária no negócio.
“Com tantos bares no mundo, ela tinha que aparecer justamente no meu?”, pergunta o fantasma de Humphrey Bogart.
Ficamos os dois, eu e o Bogart, encostados no balcão. Aguardo outra frase definitiva, algo que me explique aquela mulher e, talvez, essa repentina ansiedade. Bogart apenas mexe o seu uísque com o dedo, sorri de um jeito cínico e acompanha o ritmo da música ambiente com os pés.
Peço um conselho, ele diz que os tempos são outros, cantarola As Time Goes By e faz uma piada sobre o meu inferno astral.
Humphrey Bogart parece pouco interessado no meu drama.
Penso em agir sozinho, puxar assunto, sacar um comentário espirituoso, comparar a falta de água na cidade com a Lei Seca nos EUA, na década de 20.
Mas brinco de estátua, congelo no balcão, afundo na cadeira. Não sei se é preguiça, ou preciso me mudar pra Viena, mas meus mecanismos de defesa gritam mais do que aqueles alarmes da Car System (“Atenção, esse carro está sendo roubado…”).
Não vou, não quero, não devo começar nada que possa se prolongar por dias, semanas, meses ou anos. Ela é perfeita, mas vou precisar me organizar, precisar esperar telefonemas, escolher restaurantes, visitar parentes. Ela é linda, mas vou precisar arrumar meu sofá rasgado, trocar de geladeira, comprar comida pra colocar na geladeira, ir ao cinema aos domingos, usar a ciclovia da Paulista aos domingos, dançar, aprender a dançar, me matricular numa escola de dança. Ela é um sonho, mas vou precisar de um emprego estável, cancelar minhas férias, viajar com ela, dormir abraçado, trocar confidências.
Eu ficaria com ela pra sempre, mas teria que dizer mais vezes “eu te amo” e esquecer o “vamos combinar uma cerveja uma hora dessas”.
Ela seria a mulher da minha vida, mas, talvez, provavelmente, quase com certeza, com certeza, iria embora um dia, não voltaria pra casa, se cansaria dos meus papos, ou eu não teria papo suficiente para mantê-la interessada por muitos anos, as coisas esfriariam, a gente transaria menos, eu viraria um estorvo, ela, constrangida, diria: “nós precisamos conversar”.
E depois da conversa, depois do silêncio que vem depois deste tipo de conversa, a gente se despediria para nunca mais.
Nunca mais. Nem nesse, nem no outro, nem em nenhum inferno astral. Nem quando Saturno der a volta completa, nem quando Júpiter aparecer sei lá em que quadrante. Nunca mais, ok?
A mulher continua lá. Não está mais sozinha. Na mesa dela, duas amigas. Bonitas também. Sou a favor de gente bonita e feliz. Deixa pra lá. Não vou estragar a noite delas.
Olho para o Barman e peço o mesmo que o Bogart está tomando.
- Não dá, o gim acabou.
- O quê? O gim acabou?
Essa é a minha ideia de inferno astral.
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